O Sorteio

de Shirley Jackson (1916-1965)
(Tradução de Heber Costa)

A manhã do dia 27 de junho estava clara e ensolarada, com a frescura quente desses dias de verão; as flores desabrochavam aos montes, e a grama rebrilhava de tão verde. O povo do vilarejo começou a se ajuntar na praça, entre o correio e o banco, por volta das dez; em algumas vilas, tinha tanta gente que o sorteio levava dois dias para terminar e tinha que começar logo no dia 2 de junho, mas nessa, que tinha somente umas trezentas pessoas, o sorteio acabava em menos de duas horas, daí que, se começasse às dez da manhã, ainda dava para os moradores chegarem em casa a tempo para o almoço.

As crianças, é claro, se aglomeraram antes de todo mundo. A escola tinha fechado para o recesso do meio do ano. Quase todas estavam com uma agoniada sensação de liberdade. A tendência era chegarem caladinhas, ficando assim por um tempo, para depois começarem com algazarra. A conversa ainda era da escola e da professora, dos livros e dos carões que levaram. Betinho Martins já tinha enchido seus bolsos de pedras, e os outros meninos logo fizeram o mesmo, escolhendo as mais lisas e redondas. Beto e Ari de Jenésio e Dico de François — que o povo dizia “Franssóis” — acabaram juntando uma pilha bem grande de pedras num canto da praça e protegiam ela das botadas dos outros meninos. As meninas ficavam meio de lado, proseando umas com as outras, olhando os meninos por cima dos ombros. As crianças pequenininhas embolavam na poeira ou então seguravam na mão do irmão mais velho.

Pouco tempo depois, começaram a chegar os homens, cada um de olho nos seus filhos, falando de plantação e chuva, de tratores e dos impostos. Ficavam juntos, longe da pilha de pedras que estava no canto; suas piadas eram discretas, e eles mais sorriam do que riam. As mulheres, com seus vestidos de casa desbotados, chegaram pouco depois dos homens. Elas se cumprimentavam e fofocavam um pouco antes de irem para junto do marido. Daí a pouco, já perto dos homens, começaram a chamar os filhos, e eles vinham fazendo birra, depois de serem chamados quatro ou cinco vezes. Betinho Martins deu uma cabriola e escapou da mãe, que tentava pegar ele com a mão esticada, e voltou para a pilha de pedras. O pai ralhou com ele, e Betinho veio correndo e ficou no lugar dele, entre o pai e o irmão mais velho.

Quem organizava o sorteio — assim como as danças no arraial, o clube dos jovens e a quermesse — era Seu Samuel, o único que tinha tempo e energia para cuidar das atividades cívicas. Era um sujeito bonachão e jovial que tinha um negócio de carvoaria. As pessoas tinham pena dele porque não tinha filhos e a mulher lhe aporrinhava o juízo. Quando ele chegou na praça, carregando a caixa preta de madeira e acenando e falando, o burburinho aumentou entre os moradores. “Um tiquinho atrasado hoje, compadres.” O responsável pelos correios, Seu Geraldo, seguia de perto levando um tamborete de três pernas. Ele colocou no meio da praça, e Seu Samuel colocou a caixa preta em cima. Os moradores ficavam meio distantes, deixando um espaço entre eles e o tamborete. Quando Seu Samuel perguntou “Algum compadre pode dar uma mão aqui?”, o pessoal ficou meio ressabiado, até que dois homens, Seu Martins e o filho mais velho, Jessé, vieram segurar a caixa enquanto Seu Samuel remexia os papéis que estavam dentro.

Os petrechos do sorteio já tinham se perdido fazia tempo, e a caixa preta que agora estava em cima do tamborete já tinha sido botada em uso desde antes do Véio Matias, que era o homem mais velho da cidade, ter nascido. Seu Samuel falava sempre em fazer uma caixa nova, mas ninguém queria mexer com uma tradição, nem mesmo aquela da caixa preta. Tinha uma história de que a caixa atual tinha sido feita com pedaços da caixa antiga, que tinha sido construída quando chegaram os primeiros bandeirantes fincaram o pé naquele lugar e fizeram um assentamento. Todo ano, depois do sorteio, Seu Samuel começava a falar de novo sobre uma caixa nova, mas todo ano o assunto morria sem ninguém tomar nenhuma atitude. A caixa preta ficava mais surrada a cada ano: agora, já não era nem mais preta mesmo... tinha umas lascas tiradas na lateral que mostravam a cor original da madeira e estava manchada e esmaecida em outras partes.

Seu Martins e o filho mais velho, Jessé, firmaram a caixa no tamborete até que Seu Samuel terminasse de baralhar bem os papéis. Já que o povo tinha esquecido ou deixado para lá quase tudo do ritual, Seu Samuel tinha conseguido trocar por pedaços de papel as taliscas de madeira que eram usadas já tinha várias gerações. Seu Samuel dizia que as taliscas eram boas enquanto a vila era pequena, mas depois que cresceu para mais de trezentas almas — e ia ficar ainda maior — carecia de usar uma coisa mais fácil de colocar na caixa preta. Na véspera do sorteio, Seu Samuel e Seu Geraldo cortavam os pedaços de papel e colocavam na caixa, que então era colocada no cofre da venda de carvão de Seu Samuel e ficava trancada até que ele se aprontasse para levar ela para a praça no dia seguinte. No restante do ano, a caixa ficava guardada, às vezes num canto, às vezes noutro. Um ano, ficou no celeiro de Seu Geraldo; noutro, ficou por baixo do assoalho do correio; outras vezes, colocavam numa prateleira da venda de Seu Martins e deixavam lá.

Tinha um monte de preparativos antes de Seu Samuel anunciar que o sorteio ia começar. Tinham que fazer as listas — dos patriarcas das famílias, dos cabeças das casas de cada família, dos membros de cada casa de cada família. Tinha ainda a posse formal de Seu Samuel como oficial do sorteio, feita pelo responsável dos correios. Algumas pessoas lembravam que antes tinha um negócio feito uma cantoria, por parte do oficial do sorteio; um canto desafinado, pura formalidade, que era feito mais rápido a cada ano. Uns diziam que o oficial ficava em pé de tal jeito quando ele recitava ou cantava, outros achavam que era para ele andar entre as pessoas, mas fazia muitos anos que já tinham abandonado essa parte do ritual. Contavam os antigos também que antes o oficial do sorteio fazia um cumprimento ritual na hora de falar com cada pessoa que vinha colocar a mão na caixa, mas isso também mudou com o tempo — hoje achavam que bastava o oficial falar com cada pessoa que se aprochegava. Seu Samuel era muito bom na coisa toda. Metido numa camisa branca bem engomada e uma calça de linho escura, com a mão pousada tranquilamente na caixa preta, ele parecia uma autoridade constituída e falava que nem o homem-da-cobra com Seu Geraldo e os Martins.

Quando Seu Samuel finalmente parou de falar e se virou para os moradores reunidos, Dona Célia de Biu veio avexada pelo caminho que dava na praça, com o xale por cima do ombro, e achou um lugar atrás da multidão. “Mulher, esqueci que dia era hoje!”, disse para Dona Zefinha de François, que estava do lado dela, e ambas sorriram baixinho. “Pensei que meu véio tava no quintal juntano lenha”, continuou Dona Célia, “aí foi que deu em mim de olhar a janela e vi que os menino num tavam, na horinha eu lembrei que era vinte e sete do mês... e vim numa disparada”. Ela secou as mãos no avental, e Dona Zefinha respondeu “Mas chegasse em tempo. Ainda tão de conversa lá na frente”.

Dona Célia de Biu esticou o pescoço para ver por cima da aglomeração e achou o marido e os filhos mais na frente. Ela tocou no braço da mulher de François se despedindo e foi entrando na multidão. As pessoas se afastavam de bom-grado para ela passar. Dois ou três disseram, em voz alta para todo mundo ouvir, “Lá vai tua patroa, Biu” e “Ela conseguiu chegar em tempo”. Dona Célia alcançou o marido, e Seu Samuel, que estava esperando, disse alegremente, “Achei que a gente ia ter que tocar pra frente sem tu, Célia”. E ela respondeu, com um sorriso sem jeito, “Num havia de deixar os prato na pia, né, Samuel?”, e uma risada correu solta pela multidão enquanto as pessoas se ajeitavam de novo depois da chegada dela.

“Apois, então”, falou Seu Samuel com seriedade, “melhor começar e acabar logo com isso pra gente poder voltar pra labuta. Falta alguém ainda?”

“Melque”, disseram alguns. “Melque. Melque.”

Seu Samuel consultou a lista. “Melque Pereira”, disse. “Tá certo. Ele quebrou a perna, num foi não? Quem vai tirar por ele?”

“Acho que é eu mesmo”, disse uma mulher, e Seu Samuel virou-se para olhar. “A mulher tira pelo marido”, falou Seu Samuel. “Teus menino ainda num tem idade pra tirar não, Janete?” Apesar de Seu Samuel e todo mundo do vilarejo saber muito bem a resposta, era função do oficial do sorteio fazer formalmente esse tipo de pergunta. Seu Samuel aguardou com uma expressão educada de quem estava interessado na resposta da esposa de Melque.

“Zelinho só tem desesseis”, disse ela, com pesar. “Acho que vai ter que ser eu mesmo pra tirar no lugar de meu véio esse ano.”

“Tá certo”, disse Seu Samuel. E aí anotou alguma coisa na lista. Depois perguntou: “É o menino de Sebastião que vai tirar este ano?”.

Um menino espigado levantou a mão no meio das pessoas. “Sou eu”, disse. “Vou tirar por mim e pela minha mãe.” Ele piscava nervosamente e abaixava a cabeça enquanto umas vozes no meio da multidão diziam coisas como “Cabra bom, Riba” e “É bom ver que tem um homem pra tirar pela tua mãe”.

“Apois”, disse Seu Samuel, “acho que tá todo mundo. O Véio Matias tá por aí?”
“Tô aqui”, disse uma voz, e Seu Samuel fez sinal positivo com a cabeça.

Um súbito silêncio caiu sobre a multidão quando Seu Samuel pigarreou e olhou para a lista. “Todo mundo pronto”, perguntou. “É o seguinte, vou ler os nomes — primeiro os chefe de família — e os homem vem aqui e pega um papel da caixa. O papel tem que ficar dobrado sem ninguém espiar até que todo mundo tenha tirado. Entenderam?”

As pessoas já tinham feito isso tantas vezes que mal prestaram atenção às explicações: a maioria estava calada, apertando os lábios, sem olhar para os lados. Aí Seu Samuel levantou uma mão para o alto e disse: “Adonias”. Um homem saiu do meio do povo. “Opa, compadre”, disse Seu Samuel, e Seu Adonias respondeu: “Opa, Samuel”. Eles sorriram um para o outro fria e nervosamente. Então, Seu Adonias meteu a mão na caixa e tirou um papel dobrado. Ele segurou firmemente o papel pela orelha enquanto voltava rápido para seu lugar, onde ele ficou, meio longe da família, sem olhar para a mão.

“Aluízio”, disse Seu Samuel. “Antônio... Bernardo.”

“Nem parece mais que tem um tempo entre os sorteios”, disse a mulher de François a Dona Mira de Geraldo, na última fila.

“Parece que foi ontem que a gente fez o último.”

“O tempo voa mesmo”, disse Dona Mira.

“Carlos... François”

“Lá vai meu véio”, disse Dona Zefinha. Ela prendeu a respiração enquanto o marido ia até a frente.

“Melque”, disse Seu Samuel, e a esposa de Melque deu passos firmes em direção à caixa enquanto uma mulher dizia: “Vai lá, Janete”, e outra disse: “Lá vai ela”.
“A gente é o próximo”, falou a esposa de Geraldo. Ela observou enquanto Seu Geraldo deu a volta na caixa, cumprimentou Seu Samuel sombriamente e escolheu um pedaço de papel dentro da caixa. A essa altura, já se viam vários homens segurando pedacinhos de papel dobrados nas mãos grandes, revirando muitas e muitas vezes nervosamente. A esposa de Melque e seus dois filhos estavam juntos, e ela tinha um papel nas mãos.

“Cícero... Francisco Biu.”

“Vai lá na frente, Biu”, disse Dona Célia, e as pessoas em redor riram.

“Jenésio.”

“Tão dizendo”, disse Seu Adonias ao Véio Matias, que estava perto, “que naquelas vila lá pra cima, tão falando em acabar com o sorteio”.

O Véio Matias bufou. “Bando de besta e doido”, disse. “Escuta esses jovem de hoje falando... nada presta pra eles. Daqui com pouco, vão tá falando em voltar a viver nas caverna, ninguém trabalha, vive tudo desse jeito. Tem um ditado antigo que dizia ‘Sorteio em junho, milho vem junto’. Quando dava fé, a gente já tava comendo canjica e munguzá. Sempre vai ter o sorteio”, acrescentou ele com ar petulante. “Já basta ter que ver Samuel de conversinha aí na frente com todo mundo.”

“Nuns canto, já acabaram com os sorteios”, tornou Seu Adonias.

“Isso só traz é mau agouro”, garantiu o Véio Matias. “Bando de besta.”

“Martinho.” E Betinho Martins ficou olhando o pai ir à frente. “Otoni... Pedro.”

“Queria que eles findassem logo”, falou a mulher de Melque para o filho mais velho. “Queria que eles findassem logo.”

“Tá quase no fim”, respondeu o menino.

“Fique pronto pra correr no seu pai e contar a ele”, disse ela.
Seu Samuel chamou o próprio nome e deu um passo na direção e pegou um papel de dentro da caixa. Então, chamou “Raimundo Matias”.

“Setenta e sete anos que eu tô no sorteio”, disse o Véio Matias enquanto passava no meio do povo. “Setenta e sete vez.”

“Sebastião.” O menino espigado saiu todo desengonçado do meio da multidão. Alguém falou “Tenha sossego, Riba”, e Seu Samuel disse: “Não se avexe não, fio”.

“Zenóbio.”

Depois disso, ficou um silêncio demorado, de fôlego preso, até que Seu Samuel, segurando seu papel para cima, disse: “Pois bem, compadres”. Ninguém fez nada por uns instantes, aí os papéis se abriram. De repente, as mulheres começaram a falar todas ao mesmo tempo: “Quem foi?”, “Quem tirou?”, “Foi da casa de Melque?”, “Foi o menino de Sebastião?”. Aí umas vozes começaram: “Foi da casa de Biu”. “Foi Biu”, “Foi Biu que tirou”.

“Vá contar pro seu pai”, disse a mulher de Melque ao filho.

As pessoas começaram a procurar a família de Biu com os olhos. Biu estava quieto, olhando para o papel em suas mãos. Num rompante, a mulher dele, Célia, gritou para Seu Samuel. “Você não deu tempo d’ele caçar o papel que ele queria. Eu vi! Não tá certo isso!”

“Largue de ser má perdedora, Célia.” Dona Zefinha e Dona Mira começaram a falar: “Todo mundo teve a mesma chance.”

“Cala a boca, Célia”, disse Biu.

“Bem, pessoal”, disse Seu Samuel, “até que fizemos bem rápido, mas vamos correr mais um pouco pra terminar em tempo”. Ele consultou a outra lista. “Biu”, disse ele, “agora tu puxa pela família. Tem outros parente da tua família?”

“Tem Chico e Neidinha”, disse Dona Célia de Biu. “Deixa eles tirarem a sorte!”

“A filha tira com a família do marido delas, Célia”, disse Seu Samuel calmamente. “Tu sabe disso muito bem.”

“Não é justo!”, disse ela.

“Acho que é isso mesmo, Samuel”, disse Biu de um jeito amargurado. “Minha fia tira com a família do marido... nada mais justo. Num tem mais ninguém não, somente meus rebento.”

“Então, é só tu mesmo para tirar pela família”, replicou Seu Samuel explicando, “e é só tu também pra tirar pelos parentes. Num é isso?”.

“Isso mesmo”, tornou Biu.

“Quantos rebentos, Biu?”, perguntou Seu Samuel com formalidade.

“Três”, disse Biu.

“Biuzinho, Nanci e Davizinho. E Célia e eu.”

“Tá certo, então”, respondeu Seu Samuel. “Geraldo, pegou de volta os papéis deles?”

Seu Geraldo fez que sim com a cabeça e mostrou os pedaços de papel. “Coloque na caixa então, compadre”, orientou Seu Samuel. “Pegue o de Biu e coloque dentro.”

“O mais certo era começar tudo de novo”, disse Dona Célia, o mais baixo que pôde. “Tô dizendo que não foi certo. Não deu tempo d’ele escolher direito. Todo mundo viu.”

Seu Geraldo tinha pegado cinco papéis e colocado na caixa. Os outros pedaços ele sacudiu para o lado, e veio um vento e saiu levantando e espalhando eles.
“Veja mesmo, pessoal”, Dona Célia estava dizendo para os que estavam em volta dela.

“Tá pronto, Biu?”, questionou Seu Samuel, e Biu, depois de olhar rapidamente para a mulher e os filhos, confirmou com um gesto da cabeça.

“Se alembrem”, Seu Samuel disse, “é pra pegar o papel e ficar com ele dobrado até que todo mundo teja com o seu. Geraldo, ajuda Davizinho.” Seu Geraldo pegou a mão do menininho, que foi sem resistir até a caixa. “Pega um papel da caixa, Davizinho”, falou Seu Samuel. O menino meteu a mão na caixa e riu. “É pra pegar um só, viu?”, disse Seu Samuel. “Segura pra ele.” Seu Geraldo tirou o papel dobrado da mão fechada da criança e ficou segurando enquanto Davizinho olhava para ele com curiosidade.

“Agora é Nanci”, disse Seu Samuel. Nanci tinha doze anos. Os coleguinhas da escola prenderam a respiração quando ela foi, puxando a barra da saia, e tirou delicadamente um papel de dentro da caixa. “Biuzinho”, Seu Samuel disse, e o menino, com sua cara vermelha e seus pés desproporcionais, quase derrubou a caixa quando pegou o papel. “Célia”, comandou Seu Samuel. Ela hesitou por um instante, olhando para os lados desafiadoramente, aí crispou os beiços e foi até a caixa. Puxou um papel para fora e segurou atrás das costas.

“Biu”, disse o oficial, e Biu chegou até a caixa, tateou um pouco e trouxe na mão o último pedaço de papel.

A multidão estava quieta. Uma menina sussurrou “Que não seja Nanci”, e o sussurro correu até os cantos da multidão reunida.

“Não é mais como era”, disse o Véio Matias para todo mundo ouvir. “O pessoal não é mais como era.”

“Pois bem”, disse Seu Samuel. “Abram os papéis. Geraldo, abre o de Davizinho.”
Seu Geraldo abriu o papel e, quando ele segurou para o alto e todos viram que estava em branco, houve um suspiro conjunto. Nanci e Biuzinho abriram ao mesmo tempo e ambos sorriram alegres, virando-se para a multidão com os pedaços de papel à mostra.

“Célia”, disse Seu Samuel. Houve uma pausa e Seu Samuel olhou para Biu, que abriu o papel e mostrou. Estava em branco.

“É Célia”, disse Seu Samuel, e sua voz sumiu. “Mostra o papel dela, Biu.”
Ele foi até a esposa e puxou o papel da mão dela. Havia um ponto preto nele. O ponto preto que Seu Samuel tinha feito na véspera com um lápis grosso no seu escritório. Biu levantou o papel, e houve uma comoção.

“Pois bem, compadres”, falou Seu Samuel. “Vamo acabar rápido com isso.”

Apesar de terem esquecido quase todo o ritual e perdido a caixa preta original, eles ainda lembravam de usar as pedras. A pilha de pedras que os meninos tinham feito mais cedo estava pronta. Havia pedras no chão junto com os papéis que tinham sido descartados. Dona Zefinha de François escolheu uma pedra tão grande que ela teve que segurar com as duas mãos. Virou para Dona Mira de Melque e disse: “Vamo logo”. “Avia.”

Dona Mira, que já estava com pedras pequenas nas duas mãos, respondeu puxando o fôlego: “Não posso ficar de correria. Vá na frente que eu chego lá.”

As crianças já estavam de pedra na mão. Alguém colocou uns seixos na mão de Davizinho.

Célia estava no meio de um espaço vazio a essa altura e estendia as mãos em desespero enquanto os moradores se aproximavam dela. “Não é justo”, ela disse. Uma pedrada acertou ela bem na fronte. O Véio Matias dizia “Vamo, minha gente, vamo!”. Adonias estava à frente junto com a mulher de Seu Geraldo.

“Não é justo, não tá certo isso!”, gritou Célia, e investiram contra ela.